
BÍBLIA E CIÊNCIA
Noutros campos em que se põe o mesmo problema, como, por exemplo, na história natural e na cosmologia, procurou-se fugir ao dilema por meio do concordismo, doutrina que estava de moda no século XIX. Era aplicada para demonstrar que o desacordo entre os textos bíblicos e as hipóteses científicas do tempo era desprezível; que os autores sagrados tinham previsto todas as descobertas modernas. Marcelo de Serres, em 1830, via em Moisés o precursor de Newton, e nos livros do Génesis as bases dos tratados de física e de astronomia. Assim se vêem certos exegetas improvisados lançarem-se no seguimento das teorias então de moda: ontem, Newton, hoje, Laplace, amanhã?… E a verdadeira exegese é que paga este acordo tão arriscado.
Para a história, a doutrina concordista teve menos sucesso. Talvez porque os dados históricos eram pouco conhecidos ainda; talvez porque um documento histórico se deixa violentar menos facilmente por uma hipótese sobre as origens do homem, ou sobre a estrutura do mundo.
O QUE SIGNIFICA «TEXTO INSPIRADO»
É sobre o significado da palavra Inspiração que precisamos de parar para sairmos do aparente conflito.
«A inspiração – disse Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus – é um impulso sobrenatural, com o qual o Espírito Santo estimulou e amparou os escritores sagrados, e os guiou, enquanto escreviam, de tal modo que estes transmitiam fielmente e exprimiam com uma verdade infalível tudo o que Deus decidia que escrevessem».
Num texto deste gênero cada palavra é bem pesada. Paremos numa delas: impulso. Esta sábia e perspicaz definição respeita, na elaboração do texto sacro, o posto que compete por um lado, á inteligência e à vontade humana, e, por outro, à autoridade divina. No seu opúsculo «A Bíblia, livro de Deus, livro do homem», já por nós citado, Mons. Weber sublinha esta divisão numa página tão clara, que vale a pena transcrevê-la. Baseando-se na doutrina de S. Tomás de Aquino, do «Comentário da Inspiração dos Livros Sagrados», ele diz:
«Sim, Deus é o autor da Bíblia, o autor responsável, o autor principal. Mas esta Bíblia, não a escreveu Ele com mão invisível, como o que escreveu nos muros do palácio do rei Baltazar (Dan. 5); não a ditou mecânicamente a meros escribas, seus secretários. As pinturas que nos mostram um Anjo murmurando ao ouvido de S. Mateus o texto do seu Evangelho, podem ser muito belas e ao mesmo tempo simbólicas, mas arriscam-se a dar-nos uma falsa ideia sobre o fenómeno da inspiração. O autor sagrado não é de nenhuma forma, como era a pitonisa de Delfos, um ser que entra em transe, que perde a consciência, que abandona a sua personalidade, que se torna um simples instrumento do Espírito Santo, um instrumento material, cego e inerte. É um instrumento, estamos de acordo, mas é um instrumento que ajuda a aperfeiçoar a obra; é também uma causa (um quadro é devido ao gênio do pintor, mas também ao seu pincel), tal como uma estátua fica marcada pelo cinzel que o escultor utilizou. No caso da inspiração divina, o instrumento empregado é um instrumento humano, com faculdades humanas, inteligentes, imaginativas, e assim se manterá ao serviço de Deus. Conservará a sua personalidade, as suas particularidades, os seus métodos, o seu estilo, a sua linguagem. Deus toma-o tal como ele é, para fazer-lhe dizer aquilo que quer que diga, mas levá-lo-á a falar na sua maneira humana. Assiste-o para que diga eficazmente, sem erro, o que o autor responsável quer que ele exprima. Mas o texto não ficará necessariamente sem erros de ortografia ou de gramática, se o escritor se exprime de maneira um tanto primitiva; nem ficará sempre sem erros de forma, pelo menos para nós, ocidentais. A causa divina exclui todo o erro no ensinamento da verdade, seja ela qual for; mas não exige a perfeição literária; nem pretende do escritor sagrado uma ciência maior do que a dos seus contemporâneos: as lacunas não são erros».
OS VÁRIOS GÊNEROS LITERÁRIOS
Não é suficiente ter em conta os temperamentos dos autores sagrados e os seus dotes pessoais, para explicar o que no Antigo Testamento deixa desconfiado e cético um historiador agnóstico. Deve ser adotado um outro ponto de vista, sobre o qual a grande encíclica de Pio XII lançou toda a luz desejada: o da indispensável distinção entre os vários gêneros literários.
«Nas palavras e nos escritos dos antigos escritores orientais o sentido literal não aparece frequentemente com tanta evidência como nos escritores do nosso tempo. O que quiseram dizer com as suas palavras, não pode determinar-se pelas simples leis da gramática ou da filologia. É forçosamente necessário que o exegeta recue de qualquer modo aos remotos séculos do Oriente, de maneira que, com a ajuda da história, da arqueologia, da etnologia e das outras ciências, possa reconhecer qual gênero literário os autores daquele antigo tempo quiseram empregar e empregaram realmente. Os Orientais, com efeito, para exprimirem o que tinham em mente, não usaram sempre formas e maneiras de dizer idênticas as que hoje em dia usamos, mas sim aquelas que eram usadas pelos homens do seu tempo e dos seus países. O exegeta não pode determinar a priori quais foram; somente através de um estudo atento das antigas literaturas do Oriente o poderá fazer. Ora, nestes últimos anos, tal estudo, mais atento e mais diligente, mostrou mais claramente quais tenham sido as maneiras de dizer usadas naqueles tempos antigos, tanto nas descrições poéticas, como na exposição das leis e das normas de vida, ou na narração dos fatos e dos acontecimentos históricos».
Sublinhamos as últimas palavras, muito esclarecedoras. Se se admitir que certos livros como o de Judite, de Jonas, ou de Ester, pertencem, não a um gênero correspondente ao que nós hoje chamamos «história objetiva», mas sim a uma espécie de transposição histórica, orientada para a apologia (o que os Hebreus chamam midrash), torna-se evidente que caem por terra as objeções nascidas das aparentes inexatidões. O substrato histórico é verdadeiro, como o da Canção de Rolando, mas está utilizado dum modo diverso do nosso. «Muitas vezes – recorda ainda Pio XII -, quando se deleitam com a objeção de que os autores sagrados se afastaram da fidelidade histórica, ou de que nos transmitiram qualquer coisa com pouca exatidão, verifica-se que se trata simplesmente de maneiras de dizer, ou de contar, ao gosto dos antigos, usadas correntemente por esses homens nas suas recíprocas relações, de uso comum. A equidade exige, portanto, que quando se encontram estas expressões na linguagem divina, não se lhes chamem erros, como não o dizemos das nossas expressões de uso corrente.
A INTENÇÃO DOS REDATORES BÍBLICOS
Impõe-se finalmente uma última observação: a de que a intenção dos escritores bíblicos não era comparável a dos nossos historiadores atuais. Afirmar deles – «não são historiadores», não significa quase nada, e uma fórmula precipitada como esta conduz facilmente a erros, parecendo subentender que não escreveram senão fábulas. Para eles, um livro «histórico» é, acima de tudo, uma narração pedagógica; a tese teológica é o que lhe dá unidade e interesse. Sendo realmente históricos, no sentido de que se dirigem a verdade, mas a uma verdade mais interior e muitas vezes mais flagrante, eles não concebem história que não seja teocêntrica. O que querem é mostrar o rasto da ação divina nos acontecimentos, e escolhem os fatos de acordo com tal propósito.
O ANTAGONISMO DA BÍBLIA COM A HISTÓRIA É APARENTE
Uma vez admitidos estes princípios, anula-se o aparente antagonismo entre a Bíblia e a História. Para se compreender exatamente em que sentido e em que medida a Bíblia é um livro histórico, é preciso pensar que, embora tenha sido inspirada, foi escrita por homens; que estes homens se exprimiam dum modo e numa linguagem muito diferente da nossa; enfim, que possuíam um propósito muito bem definido, mas que não era «histórico» no sentido moderno da palavra, um propósito estreitamente ligado a sua fé. E assim, repetimos, para podermos formular um reto juízo, é necessário conhecer os homens que escreveram o texto sagrado, os seus heróis, os seus costumes, instituições e convicções, e os dos outros povos com quem entraram em contato. E é aqui que a história, tal como a entendemos, encontra novamente os seus direitos e a sua utilidade.
Daniel Rops
www.quadrante.com.br