Posts tagged: Homilias

A responsabilidade do cristão na vida pública

Padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia

Naquele tempo, os fariseus (…) lhe enviaram seus discípulos a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus com franqueza e que não dás preferência a ninguém, porque não olhas a condição das pessoas. Diga-nos, pois, o que lhe parece, é lícito pagar o tributo a César ou não?». Mas Jesus, conhecendo sua malícia, disse: «Hipócritas, por que me tentais? Mostrai-me a moeda do imposto». Eles lhe apresentaram um denário. E lhes disse: «De quem é esta imagem e a inscrição?». Disseram-lhe: «De César». Então lhes disse: «Pois dê a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus».
A Deus o que é de Deus
(…), o Evangelho termina com uma frase lapidária de Jesus: «Dê a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». Não: ou César ou Deus, mas: a um e a outro, cada um em seu plano. É o começo da separação entre religião e política, até então inseparáveis em todos os povos e regimes. Os judeus estavam acostumados a conceber o futuro reino de Deus instaurado pelo Messias como uma teocracia, ou seja, como um governo direto de Deus na terra através de seu povo.
Ao contrário, Cristo revela um reino de Deus que está neste mundo, mas não é deste mundo, que caminha em uma longitude de onda diferente e que pode por isso coexistir com qualquer regime, seja este de tipo sacro ou «leigo».
Revelam-se assim dois tipos diferentes de soberania de Deus no mundo: a soberania espiritual que constitui o reino de Deus e que Ele exercita diretamente em Cristo, e a soberania temporal ou política que Deus exercita indiretamente, confiando-a à livre eleição das pessoas e ao jogo das causas segundas. César e Deus não estão contudo situados no mesmo plano, porque também César depende de Deus e deve dar contas a Ele. «Dê a César o que é de César» significa, portanto: «Daí a Cear o que Deus mesmo quer que seja dado a César». É Deus o soberano último de todos. Nós não estamos divididos entre duas pertenças, não estamos obrigados a servir a «dois senhores».
O cristão está livre para obedecer ao Estado, mas também para resistir-lhe quando o Estado se põe contra Deus e sua lei. Não vale invocar o princípio da ordem recebida dos superiores, como estão habituados a fazer ante o tribunal os responsáveis por crimes de guerra. Antes que aos homens, há que obedecer a Deus e à própria consciência. Não se pode dar a César a alma, que é de Deus. O primeiro a tirar as conclusões práticas deste ensinamento foi São Paulo. Ele escreve: «Submetam-se todos às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não provenha de Deus. De modo que, quem se opõe à autoridade, rebela-se contra a ordem divina… por isso, precisamente pagais os impostos, porque são funcionários de Deus os ocupados assiduamente nesse ofício» (Rm 13, 1ss). Pagar legalmente os impostos para um cristão (e para toda pessoa honesta) é um dever de justiça, uma obrigação de consciência. Garantindo a ordem, o comércio e todos os serviços, o Estado dá ao cidadão algo pelo qual tem direito a uma contrapartida, precisamente para poder seguir dando tais serviços.
A evasão fiscal, quando chega a certas proporções –recorda-nos o Catecismo da Igreja Católica–, é um pecado mortal. É um roubo feito não ao «Estado», ou seja, a ninguém, mas à comunidade, isto é, a todos. Isso supõe naturalmente que também o Estado seja justo e eqüitativo ao impor seus tributos.
A colaboração dos cristãos na construção de uma sociedade justa e pacífica não se esgota em pagar os impostos, deve-se estender também à promoção dos valores comuns, como a família, a defesa da vida, a solidariedade com os mais pobres, a paz. Outro âmbito no qual os cristãos deverão oferecer uma contribuição mais incisiva é a política: não tanto os conteúdos quanto os métodos, o estilo. Há que desmantelar o clima de perpétuo litígio, voltar a levar às relações entre os partidos mais respeito e dignidade.
Respeito ao próximo, suavidade, capacidade de autocrítica são marcas que um discípulo de Cristo deve levar a todas as coisas, também à política. É indigno de um cristão abandonar-se a insultos, sarcasmo, descender a rinhas com o adversário. Se, como diz Jesus, quem diz ao irmão «estúpido!» já é réu (cf. Mt 5, 22. Ndr), o que será de muitos políticos?

Comentário ao Evangelho do dia 16.10.2005, Originalmete publicado por «Famiglia Cristiana». Traduzido por Zenit

Começou a falar, bendizendo a Deus

sao-joao-batista

[João Baptista dizia:] Na Tua presença, Senhor Jesus, não me posso calar, porque «eu sou a voz, e a voz daquele que brada no deserto: preparai o caminho do Senhor. Sou eu que necessito de ser baptizado por Ti, e és Tu que vens a mim!» (Mt 3, 3.14)
Ao nascer, apaguei a esterilidade daquela que me gerou; e, quando era um nascituro, trouxe remédio para a mudez de meu pai, recebendo de Ti a graça desse milagre. Mas Tu, nascido da Virgem Maria da forma que quiseste e que és o único a conhecer, Tu não apagaste a sua virgindade, Tu a protegeste acrescentando-lhe o título de mãe; nem a sua virgindade impediu a Tua concepção, nem a Tua concepção manchou a sua virgindade. Estas duas realidades incompatíveis, a concepção e a virgindade, uniram-se numa harmonia única, o que está ao alcance do Criador da natureza.
Eu, que sou um homem, apenas participo da graça divina; mas Tu, Tu és ao mesmo tempo Deus e homem, porque Tu és por natureza o amigo dos homens (cf. Sab 1, 6).

Fonte: Evangelho quotidiano

São João Batista é padroeiro deste blog. Querido precursor do Verbo Encarnado, Rogai por Nós.

“O verdadeiro sentido do Natal – O que comemoramos nesta data?”

Por Diácono Carlos Adriano, Ep

Nas vésperas desta magna festa da Igreja – o Natal – que se aproxima cada vez mais, teceremos uma breve consideração teológica a respeito da comemoração da Natividade de Jesus.

Ao celebrarmos uma data, temos em vista homenagearmos alguém, ou trazermos à memória um acontecimento concreto. Infelizmente, a festividade solene do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo vem sendo celebrada por muitos, sem que se tenha presente o seu verdadeiro sentido. Com frequência, o aniversariante desta solenidade instituída pela Igreja, não é ao menos recordado nas diversas festas que se dão entre os dias 24 e 25 de dezembro, em todas as partes do mundo. Pelo contrário, em muitos lugares ele é completamente esquecido, por vezes desprezado, e até mesmo ofendido. E é por isso que convém aos cristãos terem profundo conhecimento a propósito das diversas datas que a liturgia da Igreja exalta, entre elas, a que celebra o nascimento do Verbo Encarnado.

Jesus, nome dado pelo anjo Gabriel ao anunciar a Maria Santíssima que ela conceberia o Filho de Deus, exprime ao mesmo tempo a identidade e a missão daquele que viria. Em hebraico quer dizer "Deus salva". Jesus vem à terra para salvar os homens do pecado.[1]

Por que Jesus é também chamado Cristo? O Catecismo da Igreja nos responde: "Cristo" em grego, "Messias" em hebraico, significa "ungido". Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora. Ele é o Messias esperado por Israel, enviado ao mundo pelo Pai. Jesus aceitou o título de Messias, precisando, porém, o seu sentido: "descido do céu" (Jo 3, 13), crucificado e depois ressuscitado, Ele é o Servo Sofredor "que dá a sua vida em resgate de muitos" (Mt 20, 28). Do nome Cristo é que veio para nós o nome de cristãos.

Jesus Cristo, a quem comemoramos o nascimento no Natal, é o Filho de Deus que se Encarnou no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo. Ele é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro Homem na unidade da sua Pessoa divina. Ele fez-se verdadeiramente nosso irmão, sem com isso deixar de ser Deus, Nosso Senhor.[2]

Os homens foram criados para terem, como fim último, a eterna bem-aventurança, o convívio com Deus face a face para todo o sempre. O próprio Deus, ao criar o homem, inscreve em seu coração o desejo de vê-lO.[3]

Contudo, o homem, deixou que se apagasse em seu coração a confiança em relação a seu Criador e desobedeceu-O. Nesta desobediência a Deus, denominada pecado, o homem coloca o seu coração nas coisas temporais em detrimento de Deus, perde a graça e a santidade, e, portanto, a herança que lhe é reservada, impedindo assim o convívio com Deus, para os qual todos são chamados.

O Natal é a comemoração da vinda d’Aquele que redime e salva os homens do pecado, convocando-os para sua Igreja e tornando-os filhos adotivos de Deus. E tal como um filho recebe uma herança de seu pai, também os homens são pela Encarnação elevados à dignidade de filhos de Deus e de herdeiros do Céu.

Uma vez conhecido o homenageado neste tempo litúrgico, e algumas consequências de sua vinda à terra, enchamo-nos de santo júbilo nesta comemoração. Sigamos os dizeres de Bento XVI, Papa felizmente reinante, ao conduzirmos nosso estado de espírito para a festa que se aproxima, com a alegria da qual Maria Santíssima nos deu exemplo.

A alegria pelo fato de que Deus se fez Menino. Esta alegria, invisivelmente presente em nós, encoraja-nos a caminhar com confiança. Modelo e ajuda deste íntimo júbilo é a Virgem Maria, por meio da qual nos foi oferecido o Menino Jesus. Que Ela, discípula fiel do seu Filho, nos conceda a graça de viver este tempo litúrgico vigilantes e diligentes na esperança.[4]

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[1] Cf. CEC 430
[2] Cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 85 e 87.
[3] Cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 2.
[4]CELEBRAÇÃO DAS VÉSPERAS DO PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO, HOMILIA DO PAPA BENTO XVI, Basílica Vaticana, Sábado, 28 de Novembro de 2009.

Fonte: Gaudium Press 

(grifos meus)

É Advento

«Aí vem o esposo» (Mt 25, 6). Cristo, o nosso esposo, pronuncia esta  palavra. Em latim, o termo «venit» contém em si dois tempos do verbo: o passado e o presente, o que não impede de visar também o futuro. É por isso que vamos considerar três vindas do nosso esposo, Jesus Cristo. Quando da primeira vinda, Ele fez-Se homem por causa do homem, por amor. A segunda vinda tem lugar todos os dias, frequentemente e em muitas ocasiões, em todos os corações que amam, acompanhada de novas graças e de novas dádivas, consoante a capacidade de cada um. A terceira vinda é aquela que terá lugar no dia do Juízo ou na hora da morte. [...]
O motivo por que Deus criou os anjos e os homens foi a Sua bondade infinita e a Sua nobreza, uma vez que Ele quis fazê-lo para que a beatitude e a riqueza que Ele próprio é sejam reveladas às criaturas dotadas de razão e para que estas possam saboreá-Lo no tempo e usufruí-Lo para lá do tempo, na eternidade. 

O motivo por que Deus Se fez homem foi o seu amor imenso e o infortúnio dos
homens, pois eles estavam alterados pela queda do pecado original e eram incapazes de se curarem dele. Mas o motivo por que Cristo realizou todas as Suas obras na terra não apenas segundo a Sua divindade mas também segundo a Sua humanidade é quádruplo, a saber: o Seu amor divino que não tem fim; o amor criado, ou caridade, que possuía na Sua alma graças à união com o Verbo eterno e graças à dádiva perfeita que Seu Pai Lhe fez; o grande
infortúnio em que se encontrava a natureza humana; e, por fim, a honra de Seu Pai. Eis os motivos da vinda de Cristo, o nosso esposo, e de todas as Suas obras.

(Bem-aventurado Jan van Ruusbroec  – 1293-1381)(www.evangelhoquotidiano.com.br)

Nesta vida não temos cidade permanente. Chegará o dia que incluso «as potências celestes serão abaladas» (Lc 25,26). Bom motivo para permanecer em estado de alerta! Mas, neste Advento, a Igreja acrescenta um motivo muito bonito para nossa gozosa preparação: certamente, um dia os homens «verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem, com grande poder e glória» (Lc 25,27), mas agora Deus chega à terra com mansidão e discrição; em forma de recém-nascido, até o ponto que «Cristo viu-se envolto em fraldas dentro de um presépio» (São Cirilo de Jerusalém). Somente um espírito atento descobre neste Menino a magnitude do amor de Deus e sua salvação (cf. Sal 84,8).

Rev. D. Antoni CAROL i Hostench (evangeli.net/evangelho)

Na sua primeira vinda foi envolto em panos na manjedoura. Em sua segunda vinda, ele é revestido de luz como de um vestuário.
Na sua primeira vinda ele suportou a cruz, desprezando a vergonha, ele virá uma segunda vez em glória acompanhado dos exércitos de anjos.
Não é suficiente para nós, então, de se contentar com o que vem primeiro, temos de esperar na esperança da sua segunda vinda. Quando dissemos em sua primeira vinda, "Bendito o que vem em nome do Senhor ‘, vamos repetir a sua última vinda …

(São Cirilo de Jerusalém – Primeiro Domingo do Advento, Liturgia das Horas)

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