Posts tagged: Liturgia

“Viemos para adorá-Lo”

 

Ontem foi a Solenidade da Epifania do Senhor, a primeira manifestação pública de Jesus, quando celebrou-se a vinda dos Magos do Oriente aos pés da Sagrada Família para ali adorarem o menino Jesus. Estes três personagens (Melchior, Baltazar e Gaspar, segundo a tradição cristã) nos ensinam muito. Primeiro, a sairmos do nosso lugar, para encontrar o Senhor, nos braços da Virgem Maria, Sua mãe. É este o verdadeiro lugar onde sempre iremos contemplar Jesus: seja em Seu nascimento, seja depois da Sua morte. Segundo, a prestar-Lhe o obséquio da adoração. Quanto nos falta hoje, a muitos de nós, este verdadeiro espírito de adoração encontrado nesses sábios pagãos! Eles, que de alguma forma conheceram as profecias judaicas acerca do Messias e da salvação do mundo e souberam reconhecer, diferentemente da maioria dos judeus daquela época, a divindade daquela criança. Terceiro, os magos nos ensinam a dar-Lhe presentes. E qual o melhor presente a oferecer ao pequeno, por ocasião do seu nascimento? Se ouro, incenso e mirra eram para o Cristo  Rei, Sacerdote e Vítima, na cruz,  o nosso coração é para o Cristo Deus. O Deus que não que de nós sacrifícios animais, nem bens materiais, mas apenas o nosso interior para transformá-lo. Então, rezemos assim: “Meu Jesus, ofereço-Te o meu coração, manchado e despojado: aceita-o e transforma-o, uma vez que vieste cá abaixo para lavar com o Teu sangue os nossos corações culpados e transformar-nos assim de pecadores em santos. Dá-me, pois, esse ouro, esse incenso, essa mirra que me faltam. Dá-me o ouro do Teu santo amor; dá-me o incenso, o espírito de oração; dá-me a mirra, o desejo e a força de me mortificar em tudo o que te desagrada. Virgem santa, tu acolheste os piedosos reis magos com uma viva afeição e eles ficaram cheios de felicidade; digna-te também acolher-me e consolar-me, a mim que venho, seguindo o seu exemplo, visitar e oferecer-me ao teu Filho.“ (S. Afonso de Ligório).

Mater Dei

 

SANCTA MARIA, MATER DEI, ORA PRO NOBIS PECATORIBUS, NUNC ET HORA MORTIS NOSTRAE. AMÉM.

“o Concílio de Éfeso proclamou, em 431, que Maria se tornou, com toda a verdade, Mãe de Deus, por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio: «Mãe de Deus, não porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divina, mas porque dela recebeu o corpo sagrado, dotado duma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne”[¹]

“’Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…’. Com Isabel, também nós ficamos maravilhados: “E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?” (Lc 1, 43). Porque nos dá Jesus, seu Filho, Maria é Mãe de Deus e nossa Mãe; podemos confiar-lhe todas as nossas preocupações e pedidos: Ela ora por nós como orou por si própria: “Faça-se em Mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Confiando-nos à sua oração, abandonamo-nos com Ela à vontade de Deus: “Seja feita a vossa vontade”.[²]

[¹] Catecismo da Igreja Católica, § 466

[²] ibidem, § 2677

Te Deus Laudamus

É com este belíssimo hino litúrgico que a Igreja costumeiramente encerra o ano, agradecendo a Deus pelas graças recebidas ao longo dos 365 dias. É atribuído a Santo Ambrósio e a Santo Agostinho, que o teriam composto em um fervor religioso, na catedral de Milão, no século IV[¹].

Nós vos louvamos, ó Deus,
nós vos bendizemos, Senhor.
Toda a terra vos adora,
Pai eterno e omnipotente.
Os Anjos, os Céus e todas as Potestades,
os Querubins e os Serafins vos aclamam sem cessar:
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo,
o céu e a terra proclamam a vossa glória.
O coro glorioso dos Apóstolos,
a falange venerável dos Profetas,
o exército resplandecente dos Mártires
cantam os vossos louvores.
A santa Igreja anuncia por toda a terra
a glória do vosso nome:
Deus de infinita majestade,
Pai, Filho e Espírito Santo.
Senhor Jesus Cristo, Rei da Glória,
Filho do Eterno Pai,
para salvar o homem, tomastes a condição humana
no seio da Virgem Maria.
Vós despedaçastes as cadeias da morte
e abristes as portas do Céu.
Vós estais sentado à direita de Deus, na glória do Pai,
e de novo haveis de vir para julgar os vivos e os mortos.
Socorrei os vossos servos, Senhor,
que remistes com o vosso Sangue precioso;
e recebei-os na luz da glória,
na assembleia dos vossos Santos.

V. Salvai o vosso povo, Senhor,
e abençoai a vossa herança;
R. sede o seu pastor e guia através dos tempos
e conduzi-os às fontes da vida eterna.

V. Nós vos bendiremos todos os dias da nossa vida
R. e louvaremos para sempre o vosso nome.

V. Dignai-vos, Senhor, neste dia, livrar-nos do pecado.
R. Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

V. Desça sobre nós a vossa misericórdia,
R. porque em vós esperamos.

V. Em vós espero, meu Deus,
R. não serei confundido eternamente.[²]

 

[¹] Wikipédia

[²] Paroquias.com

Você sabia que hoje é dia do rei Davi?

 

“Hoje, 29 de dezembro, celebramos o santo Rei Davi. Mas, é a toda a família de Davi que a Igreja quer honrar e especialmente ao mais ilustre de todos eles: a Jesus, o Filho de Deus, Filho de Davi! Hoje, nesse eterno ‘hoje’ do Filho de Deus, a Antiga Aliança do tempo do Rei Davi realiza-se e cumpre-se em toda sua plenitude”.[¹]

É isso mesmo. Além de ser dia dedicado a S. Tomás Becket, arcebispo inglês, defensor dos direitos da Igreja, que foi assassinado dentro de sua própria catedral, no século XII[²], hoje também é dia litúrgico do Santo Davi, Rei e Profeta! Sua memória é citada no Martirológio Romano, nesta data.

É tradicional nas Igrejas orientais celebrar os Santos do Antigo Testamento. Não é costume, no Ocidente, a celebração dessas datas. Note que nem chamamos Santo Abraão ou Santo Moisés, por exemplo.

 

[¹]http://evangeli.net/evangelho/feria/I_45

[²]http://www.santamissa.com.br/santo/santo.asp

Assim nos fala o Deus Menino

"Nasci pobre, para que saibas que sou a única riqueza.
Nasci num estábulo, para que saibas santificar qualquer ambiente ou situação.
Nasci Menino, Eu o Senhor, para que não tenhas medo de Mim.
Nasci durante a noite, para que saibas que posso iluminar qualquer realidade ou situação.
Nasci como pessoa humana, para que nunca te envergonhes de ti.
Nasci como homem, para que tu possas "deus".
Nasci no meio de perseguições, para que saibas aceitar as dificuldades e sofrimentos:
O SOFRIMENTO HUMANIZA DEUS E DIVINIZA O HOMEM".

Cartão de Natal

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Começou a falar, bendizendo a Deus

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[João Baptista dizia:] Na Tua presença, Senhor Jesus, não me posso calar, porque «eu sou a voz, e a voz daquele que brada no deserto: preparai o caminho do Senhor. Sou eu que necessito de ser baptizado por Ti, e és Tu que vens a mim!» (Mt 3, 3.14)
Ao nascer, apaguei a esterilidade daquela que me gerou; e, quando era um nascituro, trouxe remédio para a mudez de meu pai, recebendo de Ti a graça desse milagre. Mas Tu, nascido da Virgem Maria da forma que quiseste e que és o único a conhecer, Tu não apagaste a sua virgindade, Tu a protegeste acrescentando-lhe o título de mãe; nem a sua virgindade impediu a Tua concepção, nem a Tua concepção manchou a sua virgindade. Estas duas realidades incompatíveis, a concepção e a virgindade, uniram-se numa harmonia única, o que está ao alcance do Criador da natureza.
Eu, que sou um homem, apenas participo da graça divina; mas Tu, Tu és ao mesmo tempo Deus e homem, porque Tu és por natureza o amigo dos homens (cf. Sab 1, 6).

Fonte: Evangelho quotidiano

São João Batista é padroeiro deste blog. Querido precursor do Verbo Encarnado, Rogai por Nós.

“O verdadeiro sentido do Natal – O que comemoramos nesta data?”

Por Diácono Carlos Adriano, Ep

Nas vésperas desta magna festa da Igreja – o Natal – que se aproxima cada vez mais, teceremos uma breve consideração teológica a respeito da comemoração da Natividade de Jesus.

Ao celebrarmos uma data, temos em vista homenagearmos alguém, ou trazermos à memória um acontecimento concreto. Infelizmente, a festividade solene do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo vem sendo celebrada por muitos, sem que se tenha presente o seu verdadeiro sentido. Com frequência, o aniversariante desta solenidade instituída pela Igreja, não é ao menos recordado nas diversas festas que se dão entre os dias 24 e 25 de dezembro, em todas as partes do mundo. Pelo contrário, em muitos lugares ele é completamente esquecido, por vezes desprezado, e até mesmo ofendido. E é por isso que convém aos cristãos terem profundo conhecimento a propósito das diversas datas que a liturgia da Igreja exalta, entre elas, a que celebra o nascimento do Verbo Encarnado.

Jesus, nome dado pelo anjo Gabriel ao anunciar a Maria Santíssima que ela conceberia o Filho de Deus, exprime ao mesmo tempo a identidade e a missão daquele que viria. Em hebraico quer dizer "Deus salva". Jesus vem à terra para salvar os homens do pecado.[1]

Por que Jesus é também chamado Cristo? O Catecismo da Igreja nos responde: "Cristo" em grego, "Messias" em hebraico, significa "ungido". Jesus é o Cristo porque é consagrado por Deus, ungido pelo Espírito Santo para a missão redentora. Ele é o Messias esperado por Israel, enviado ao mundo pelo Pai. Jesus aceitou o título de Messias, precisando, porém, o seu sentido: "descido do céu" (Jo 3, 13), crucificado e depois ressuscitado, Ele é o Servo Sofredor "que dá a sua vida em resgate de muitos" (Mt 20, 28). Do nome Cristo é que veio para nós o nome de cristãos.

Jesus Cristo, a quem comemoramos o nascimento no Natal, é o Filho de Deus que se Encarnou no seio da Virgem Maria, por obra do Espírito Santo. Ele é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro Homem na unidade da sua Pessoa divina. Ele fez-se verdadeiramente nosso irmão, sem com isso deixar de ser Deus, Nosso Senhor.[2]

Os homens foram criados para terem, como fim último, a eterna bem-aventurança, o convívio com Deus face a face para todo o sempre. O próprio Deus, ao criar o homem, inscreve em seu coração o desejo de vê-lO.[3]

Contudo, o homem, deixou que se apagasse em seu coração a confiança em relação a seu Criador e desobedeceu-O. Nesta desobediência a Deus, denominada pecado, o homem coloca o seu coração nas coisas temporais em detrimento de Deus, perde a graça e a santidade, e, portanto, a herança que lhe é reservada, impedindo assim o convívio com Deus, para os qual todos são chamados.

O Natal é a comemoração da vinda d’Aquele que redime e salva os homens do pecado, convocando-os para sua Igreja e tornando-os filhos adotivos de Deus. E tal como um filho recebe uma herança de seu pai, também os homens são pela Encarnação elevados à dignidade de filhos de Deus e de herdeiros do Céu.

Uma vez conhecido o homenageado neste tempo litúrgico, e algumas consequências de sua vinda à terra, enchamo-nos de santo júbilo nesta comemoração. Sigamos os dizeres de Bento XVI, Papa felizmente reinante, ao conduzirmos nosso estado de espírito para a festa que se aproxima, com a alegria da qual Maria Santíssima nos deu exemplo.

A alegria pelo fato de que Deus se fez Menino. Esta alegria, invisivelmente presente em nós, encoraja-nos a caminhar com confiança. Modelo e ajuda deste íntimo júbilo é a Virgem Maria, por meio da qual nos foi oferecido o Menino Jesus. Que Ela, discípula fiel do seu Filho, nos conceda a graça de viver este tempo litúrgico vigilantes e diligentes na esperança.[4]

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[1] Cf. CEC 430
[2] Cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 85 e 87.
[3] Cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 2.
[4]CELEBRAÇÃO DAS VÉSPERAS DO PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO, HOMILIA DO PAPA BENTO XVI, Basílica Vaticana, Sábado, 28 de Novembro de 2009.

Fonte: Gaudium Press 

(grifos meus)

O Natal não é uma história para crianças, mas um evento histórico, diz Papa

Cidade do Vaticano (Segunda, 21-12-2009, Gaudium Press) "O Natal não é uma fábula pra crianças, mas a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz", asseverou Bento XVI no Ângelus deste domingo, em seu penúltimo encontro com os fiéis antes das celebrações pelo nascimento do Senhor. O pontífice encontrará ainda os fiéis na audiência geral desta quarta-feira.

Ao referir-se ao Natal, Bento XVI recorreu à liturgia deste domingo e ao anúncio proposto pelo profeta Miquéias, segundo o qual Belém seria a terra onde um misterioso nascimento levaria a um tempo de reconciliação e de paz entre os filhos de Israel.

Graças ao nascimento de Jesus Cristo, explicou o Papa em sua fala antes da recitação mariana do meio-dia, Belém é a cidade-símbolo da paz. "É uma profecia de paz para cada homem, que empenha os cristãos a inserirem-se nos bloqueios, nos dramas, muitas vezes desconhecidos e escondidos, e nos conflitos do contexto em que se vive, com os sentimentos de Jesus, para se tornarem por toda a parte instrumentos e mensageiros de paz, para levar amor onde há ódio, perdão onde há ofensa, alegria onde há tristeza e verdade onde há erro, segundo as belas expressões de uma conhecida oração franciscana".

"Hoje, como nos tempos de Jesus, o Natal não é uma fábula para meninos, mas a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz. ‘Ele mesmo será a paz!’, diz o profeta referindo-se ao Messias. Toca a nós abrir, de par em par, as portas, para O acolher", falou Bento XVI.

Em Roma o frio chegou, mas mesmo assim foram numerosos os fiéis que estiveram presentes na Praça de São Pedro, provenientes de diversas as partes do mundo, como todos os domingos. O Santo Padre saudou a todos nas seguintes línguas: francês, inglês, alemão, espanhol, polonês e italiano.

(…)

Fonte: Gaudium Press

(grifos meus)

Tem muita gente que precisa ouvir (mais que ouvir, acreditar) nisso que o Papa fala. O relato evangélico da infância de Jesus não é uma lenda inventada pelos hagiógrafos. É a Verdadeira história do Deus que se encarnou na história humana para nos salvar.

Os três nascimentos do Verbo

A síntese da revelação do Verbo encarnado se encontra no prólogo do Evangelho de São João. Nele se trata dos três nascimentos do Verbo, que são celebrados cada ano pelas três Missas da Natividade. Seu nascimento eterno, seu nascimento temporal, segundo a carne em Belém e seu nascimento nas almas.

O nascimento eterno do Verbo está claramente expresso no primeiro e último versículo do Prólogo do Evangelho:

No princípio era o Verbo,

e o Verbo estava em Deus,

e o Verbo era Deus.

A Deus nada se viu jamais,

Deus unigênito, que está no seio do Pai, este nos deu a conhecer.

Nestas palavras se encontram claramente afirmadas a distinção entre o Verbo, Filho de Deus, e o Pai, e também a divindade do Verbo, consubstancial ao Pai.

A distinção das duas pessoas divinas aparece no fato de dizer: o Verbo estava em Deus (Verbum erat apud Deum). Nada está acerca de si mesmo, nem em si mesmo. E se se duvidasse que a expressão o Verbo designa a uma pessoa, a dúvida desaparecerá pelo versículo 18, no final do Prólogo: A Deus nada se viu jamais; Deus unigênito que está no seio do Pai, este nos deu a conhecer. É claro, por todo o prólogo, que o Filho unigênito é o Verbo de Deus encarnado; e a expressão que está no seio do Pai explica e precisa a do versículo primeiro: o Verbo estava em Deus. É evidente também que Filho unigênito não é o nome de um atributo divino, senão o nome de uma pessoa, como o do Pai. As pessoas são realmente distintas: O Pai não é o Filho, pois o que gera não é o que foi gerado; nada se gera a si mesmo.

Pelo contrário, não se pode dizer: Deus não é sua inteligência, sua sabedoria, seu amor; é, na realidade, sua Inteligência, a mesma Sabedoria, o Amor mesmo; estes atributos essenciais se identificam com sua Essência. O Pai não é o Filho; entre eles há uma oposição de relação, oposição que não existe entre cada um deles e a essência divina.

E não é menos evidente, pelo prólogo, que o Verbo é consubstancial ao Pai, pois disse: E o Verbo era Deus. No grego, o Verbo é claramente o sujeito desta proposição, como da frase que procede e da que segue. E é evidente também que a palavra de Deus está tomada no mesmo sentido pleno que na proposição precedente: o Verbo estava em Deus, e que na seguinte: Ele estava ao princípio em Deus.

Ademais, os versículos seguintes mostram que o Verbo é, junto com o Pai, Criador, autor da vida natural e da vida sobrenatural: Todas as coisas foram criadas por Ele, e sem Ele não se faz nada de quanto há sido feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A luz ilumina nas trevas, mas as trevas não a acolheram.

Estas últimas palavras olham sobre todo a luz sobrenatural necessária para crer as verdades da fé imprescindíveis para a salvação.

O primeiro e o último versículo do prólogo nos fazem ver, assim, o profundo sentido das palavras do Salmo: “A mim me disse o Senhor: tu és meu filho. Eu te gerei hoje (Sl 2, 7)”, e as do Salmo 109: “Disse o Senhor a meu Senhor: senta-te a minha direita…Em meio dos resplendores da santidade, de minhas entranhas te gerei, antes de existir a aurora (Sl 109, 1-3)”. Também compreendemos melhor o que queria dizer o Espírito Santo para inspirar o autor do livro da Sabedoria: "A Sabedoria é como uma exalação da virtude de Deus, ou como uma pura emanação da glória de Deus onipotente;… é o resplendor da luz eterna,e um espelho sem mancha da majestade de Deus, e uma imagem de sua bondade (Sb 7, 25-27)”.

Não menos claramente nos fala o prólogo do nascimento temporal do Verbo no versículo 14: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e temos visto sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

Este nascimento temporal, segundo a carne, é o que foi anunciado pelo profeta Miquéias: “E tu, ó Belém Efrata, pequena para ser contada entre as milhares de Judá, de ti sairá quem imperará em Israel, cujas origens remontam os tempos antigos, aos dias do longíquo passado… Seu prestígio será exaltado até os confins da terra (cf. Mq 5, 1 e 3)”.

É a realização da profecia de Isaiás: “pois há nascido um menino entre nós, e nos foi dado um filho, o qual Lea sobre seus ombros o principado, e terá por nome o Admirável, o Conselheiro, Deus, o Forte, o Pai do século vindouro, o Príncipe da paz, cujo reino não terá fim (Is 9, 5-6)”.

O prólogo nos fala finalmente do nascimento espiritual do Verbo, vivendo na Igreja que é seu Corpo Místico, nas almas de boa vontade: “Veio aos seus, mas os seus não o receberam. Mas a quantos que receberam deu-lhe o poder de vir a ser filho de Deus, a aquele que crêem em seu nome; que não de sangue, nem da vontade carnal, nem da vontade do varão senão de Deus são nascidos (Is 11 e ss.)”.

Lhes deu o poder ser filhos de Deus por adoção, como É o Filho de Deus por natureza. Nossa filiação é uma imagem da sua, tal como precisa no versículo 16: Pois de plenitude recebemos todos graça sobre graça. Porque a Lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade, veio por Jesus Cristo.

O mesmo Jesus disse: “Se alguém me ama,guardará minha palavra, e meu Pai lhe amará, e veremos a ele e nele faremos morada (Jo 14, 23)”. Também disse: “Se me amais, guardareis meus mandamentos; e eu rogarei ao Pai, e os dará outro Advogado, que estará convosco para sempre (Jo 14, 16)”.

O Verbo, Filho de Deus, habita, com o Pai e o Espírito Santo, em todas as almas da terra, em estado de graça, do purgatório e do céu, em todos os justos. Enquanto a sua santa humanidade, esta não habita na alma justa,mas exerce sobre ela uma influência constante, pois é o instrumento sempre unido a Divindade para comunicarmos todas as graças sacramentais ou extra-sacramentais que Jesus mereceu durante sua vida terrena e, sobretudo, na Cruz (cf. Santo Tomás. Sum. Theol., III, q. 43, a. 2; q. 48, a. 6; q. 62, a. 4). Desde logo, se pode falar de um nascimento espiritual do Verbo nas almas, ou de uma vinda silenciosa do Verbo nas almas, como foi aos pastores de Belém; é esta vinda silenciosa a que honra uma das três Missas da Natividade. Também neste sentido São Paulo escreve: “Quem os gerou em Cristo pelo Evangelho foi eu (cf. 1Cor 4, 15)" para que incorporados a Ele, para que estejais Nele e Ele em vós.

Nunca poderemos agradecer suficientemente ao Senhor a realização do mistério da Encarnação Redentora. Ademais, quando entramos numa Igreja, pedimos uma graça espiritual ou temporal para nós para os nossos e, às vezes, agradecemos ao Senhor tal ou qual benefício. Mas deixemos de agradecer o benefício dos benefícios, aquele que, desde a queda, é a fonte de todos os demais, o da vinda do Salvador. E como disse São Paulo: “Tudo quanto fazeis por palavra ou de obra, fazendo tudo no nome do Senhor Jesus, dando graças a Deus Pai por Ele (cf. Col 3, 17)”, por todos os benefícios que temos recebido e que recebemos cotidianamente por seu Filho.

Ipsi gloria in saecula.

Essas páginas tem por fim convidar as almas a contemplação do mistério de Cristo, quem há querido converter-se, na Eucaristia, nosso alimento espiritual.

Seria difícil expressar melhor esta contemplação que o que faz a grande doxologia, o Gloria, que as vezes se recita mecanicamente na Missa, mas que pela plenitude do sentido de suas palavras arrebata as almas mais contemplativas. No Líber Pontificalis (Ed. Duchesne, I, 129) se diz que o Papa Telésforo ordenou a princípios do século II (128-129) que o Gloria in excelsis fosse recitado no dia da Natividade de Cristo.

Quando Cristo inspirava ao que compôs, previa que seria cantado na Missa durante séculos e admiraria aos grandes crentes.

Contemplemos com freqüência o Glória o imenso amor de Deus por nós. Deus nos fala, é preciso responder-lhe. Recordemos, como disse São João da Cruz, que na tarde de nossa vida seremos julgados no amor.

Retirado de: Reginald Garrigou-Lagrange O. P. El Salvador y su amor por nosotros. Ed. Rialp, Madrid, 1977 – col. Patmos, Espiritualidade, p. 514-521

Fonte: Blog A vida Sacerdotal

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