A arte de ser Feliz..


Felicidade é um estado de espírito. Você pode se considerar feliz se na maior parte das vezes é mais alegre do que triste. Mas ninguém é alegre 24h por dia, 7 vezes por semana, 365 dias no ano!
Não mesmo! Considero-me feliz apesar de ter meus momentos de melancolia; uma tristeza neurótica com a finitude/plenitude das coisas, que me abate constantemente. Mas dai vejo que está tudo certo, tomando o rumo que escolhi e as coisas voltam a ser coloridas. Pelo menos até os próximos dias de fechar a janela e ver tudo apagado, quase um ciclo de bipolaridade. E assim, também é com Cecília…
 
A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles




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