“Onde você tem vivido?”, talvez seja essa a indagação mais recorrente em nossa mente, quando paramos e nos vemos em situações que deveriam ser diferentes, porém, continuam revivendo fantasmas do passado, pois somos levados muitas vezes a situações ou decisões que são influenciadas pelas nossas experiências e daí nos pegamos “andando por onde não queremos e fazendo o que não desejamos” (Rom 7,19).
E nesse passo vamos vivendo como se nada estivesse em jogo, indiferentes muitas vezes às necessidades mais latentes dos outros, dito próximos, e que na maioria das vezes não os consideramos tão próximos assim. Cabe aqui uma segunda indagação: “Você tem sido um pouco de CÉU para os outros, ou muito de SEU?”.
Temos visto o avançar da iniqüidade na nossa sociedade. Inúmeros casos de homossexualismo, um verdadeiro bombardeio da mídia sobre nossas cabeças, com beijos explícitos, instigações, e propagandas das mais variadas, leis imorais entre outras coisas; a violência desmedida e inconseqüente, dos marginalizados e dos que deveriam ser a lei; mentiras, sobretudo no campo político, onde até mesmo símbolos de presentes de festas cristãs, como panetones, têm sido ícones para uma criminalidade disfarçada sob as alcunhas do poder; uma sensualidade incabível na mídia e na moda, tanto infanto-juvenil, quanto adulta. E uma erva-daninha que prolifera em nosso meio: as brincadeiras escarnecedoras. Temos a grande habilidade de destacar imperfeições ou limitações das outras pessoas, como se fossemos os mais aptos, os mais perfeitos – lembremos: “pois é a partir da grandeza e da beleza das criaturas, que, por analogia, se conhece seu autor” (Sab 13,5) .
2. O Céu
O céu não é um lugar geométrico, espacial, mas sim uma maneira de ser (CIC 2794). Por isso nossa compreensão de Céu é muito limitada, pois ficamos atados ao que conseguimos capturar com nosso pensamento ou nossa consciência.
“O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo” (Rom 14,17).
Não podemos ficar com a impressão de que o Céu é algo distante e não-alcançável. O céu está mais perto e mais acessível de cada um de nós, mais do que podemos perceber. Contudo, há alguns pontos que se nos impõem que precisamos transpor o abismo que há, conforme na parábola entre o rico e Lázaro: “há entre nós e vós um grande abismo” (Lc 16,26). Como transpor esse grande abismo indicado na parábola? Só há um modo que a Igreja apoiada nas sagradas escrituras nos oferece para transpormos esse grande abismo: a conversão do coração.
Pela conversão do coração o homem redescobre sua maneira autêntica de viver a vida. Ele realmente sente que o céu é possível e que o céu é a realização de suas aspirações mais profundas, de seus desejos e sonhos (CIC1024).
Porém não conseguimos nós adentrarmos ao céu, pois o céu é o lugar das criaturas espirituais – os anjos – que estão ao redor de Deus (CIC326). Portanto, temos que tomar para nós um modo de vida espiritual, não centrado nas coisas, em ter, mas sim em ser, centrado na pessoa de Cristo que é tudo em todos (Cl 3,11).
3. O meu lugar é o Céu
Se o meu lugar é o Céu, então como vou chegar lá?
“Quando estávamos mortos em conseqüência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo Jesus – é por graça que fostes salvos! -, juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, com Cristo Jesus” (Ef 2,5-6).
É pela morte e ressurreição de Jesus que o abismo apontado na parábola do rico e do Lázaro se desfaz. Contudo, essa salvação depende de nossa atitude de filhos de Deus, co-herdeiros da graça.
É Jesus, o Filho de Deus que “desceu do céu”, sozinho e para lá nos faz subir com Ele, por sua cruz, sua ressurreição e ascensão (CIC2795).
Ele é o Salvador que nos dá o retorno ao lugar para o qual fomos criados.
Por tanto, tomemos para nós a palavra de Jesus no evangelho de S. João: “na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2-3). Temos uma morada no céu, pois a conversão do nosso coração, nossa mudança de mentalidade nos faz voltar para a terra prometida (Jr 3,19).
É nosso dever assumirmos uma vida de aspirações superiores, pois viver no céu é viver em Cristo (CIC1025). Não podemos continuar a aspirar poucas coisas, ou pequenas, temos que ter grandes ideais, mesmo que não saibamos ao certo que ideais são esses.
Como por exemplo, a parábola do filho pródigo: o mais novo, quando retornou, tinha a meta de voltar para a casa do pai e o pai lhe deu um novilho gordo para a festa, enquanto que o outro que sempre viveu na mesmice, não enxergando sua realidade de filho amado, sempre ao lado do pai, se contentaria com um cabrito, pois não tinha grandes ideais, só continuar vivendo… (Lc 15,23.29).
Temos que ir morar no céu. A nossa vida não é mais nossa, mas “está escondida em Cristo” (Cl 3,3).
Aspirando coisas maiores, ou seja, aspirando mesmo transpor o abismo entre o céu e o outro lugar, a cada dia da nossa vida, pois “cada um receberá o seu salário na medida do seu próprio trabalho” (Caminho748).
Nós não temos parada aqui, temos que viver numa eterna busca da terra futura, vigilantes e orantes, jejuando e rezando e assistindo os mais necessitados (Hb 13,14).
Temos que imitar os santos, que percorreram caminhos muitas vezes pedregosos para chegar ao final da corrida, tomando cuidado dos que querem nos desviar do nosso caminho, do caminho que o próprio Senhor nos preparou e porque nós somos cidadãos dos céus (Fl 3,17-20).
