Jesus morreu “por muitos” ou “por todos”? – Por Marcos Rocha

Nas palavras utilizadas por Jesus Cristo na Última Ceia,  reproduzidas nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e na primeira carta de Paulo aos Coríntios, existe uma aparente diferença que perturba alguns estudiosos. Segundo Marcos e Mateus, Cristo disse que o seu sangue havia de ser derramado “por muitos”, remetendo desse modo precisamente ao 53º capítulo do livro do profeta Isaías, enquanto que em Lucas e Paulo, Jesus se refere em um derramamento de seu sangue precioso “por vós” (todos).

Antes de mais nada, a palavra “por” deve ser destacada. Esta é uma palavra-chave nas narrações da Última Ceia, onde Jesus institui a Eucaristia e também preciosa para entender a figura de Cristo, em geral. Como diz Bento XVI, “(…) toda a sua índole é qualificada com a expressão “pró-existência”, um existir não para Si mesmo, mas para os outros; e isso não apenas como uma dimensão qualquer desta existência, mas como aquilo que constitui o seu aspecto mais íntimo e abrangente. O seu ser como tal é um “ser para”(…)

Ou seja, se conseguirmos compreender isto, iremos entender claramente o verdadeiro mistério da vida e da missão de Jesus Cristo e como seguí-lo, como sermos seus legítimos discípulos.

Existe diferença entre “por muitos” e “por todos”?

Bem, poderíamos entender que Jesus, sendo judeu, poderia estar usando uma expressão ligada ao semitismo. O significado nos evangelhos de Mateus e Marcos em seu sentido grego traduzia-se para “por muitos”, mas, no entanto, se considerarmos que Jesus era judeu, o significado  com base nos textos do Antigo Testamento correspondem dizer que Jesus teria dito “por todos”. Ou seja, o significado veterotestamentário indica “totalidade”. Logo, em diversos países, os fiéis ouvem, durante a celebração eucarística, “derramado por vós e por todos”.

Este conceito foi substituído e hoje estes textos do Antigo Testamento, como Isaías 53, não podem pura e simplesmente significar a “totalidade”, mas a “totalidade de Israel”, o que reduziria a missão de Jesus para somente o povo judeu. Somente com o evangelho sendo pregado aos pagãos, o horizonte universal do sacrifício de Jesus e da sua expiação, englobaria “todos”, pagãos e judeus.

4. Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado.5. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.6. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor fazia recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós. 7. Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.)8. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender sua causa, quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo?9. Foi-lhe dada sepultura ao lado de fascínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira.10. Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor será por ele realizada.11. Após suportar em sua pessoa os tormentos, alegrar-se-á de conhecê-lo até o enlevo. O Justo, meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniqüidades.12. Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados.” (Is 53,4-12)

Contudo, a problemática continua… Se os textos do Antigo Testamento já não significam a totalidade de pagãos e judeus, mas só de judeus e isto não foi base única para as palavras de Jesus na Última Ceia, Cristo morreu “por muitos” ou “por todos”?

Atualmente, os estudos vão na seguinte direção: segundo a estrutura lingüística do texto, o “ser derramado” não se refere ao sangue, mas ao cálice; o derramar é do sangue do cálice. A frase sobre o cálice não aludiria ao acontecimento da morte na cruz e seu efeito, mas ao ato sacramental, esclarecendo a palavra “muitos” em Mateus e Marcos: enquanto a morte de Jesus vale para “todos”, o alcance do Sacramento é mais limitado, alcançando “muitos”.

24. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos. (Mc 14,24)

Esta passagem mostra que o sangue derramado do cálice, na Eucaristia, alcança os que comungam dele sacramentalmente.

Contudo, esta explicação ainda precisa ser melhorada. Em Mc 10,45 o alcance agora não do sacramento, mas da morte e expiação de Jesus também é dita por muitos. Vejamos:

45. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos.” (Mc 10,45)

Todavia, neste texto Jesus assume a profecia do Servo de Javé em Isaías 53 e associa-a à missão do Filho do homem. Podemos dizer que Jesus sabia que, na sua pessoa, se cumpriam a missão do Servo de Javé e a missão do Filho do homem. A união desses dois motivos supera a missão do Servo de Javé, o que amplia e aprofunda o sacrifício de Jesus de “muitos” para “todos”.

Esta é a pedagogia divina. Ao longo dos textos do Novo testamento, esta “qualificação universal” da missão de Jesus no caminho da Igreja nascente, sob a guia do Espírito de Deus, vai sendo percebida.

26. Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito. (Jo14,26)

Os discípulos começam a perceber todo o mistério presente por trás das palavras de Jesus. Por isto em Lucas e na carta de Paulo as palavras são mais universais, melhor compreendidas, à luz do Espírito Santo.

Vejamos outros textos do Novo Testamento que mostram claramente isto:

5. Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem 6. que se entregou como resgate por todos.” (1 Tm 2,5-6a)

Neste texto Paulo escreve que os pagãos na sua totalidade (pleroma) devem alcançar a salvação e que todo Israel será salvo:

“25. Não quero, irmãos, que ignoreis este mistério, para que não vos gabeis de vossa sabedoria: esta cegueira de uma parte de Israel só durará até que haja entrado a totalidade dos pagãos.26. Então Israel em peso será salvo, como está escrito: Virá de Sião o libertador, apartará de Jacó a impiedade.” (Rm 11,25-26)

João diz que Jesus seria morto “pelo povo”, isto é, os judeus, todavia “não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos.

“50. Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação. 52. e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos.” (Jo11,50.52)

Isto é, a morte de Jesus vale para os judeus e para os pagãos, para a humanidade no seu conjunto.

Ou seja, de Isaías 53 até os textos do Novo Testamento, torna-se mais evidente que Jesus de fato morreu por todos.

E já que os principais textos são os da Última Ceia, podemos reforçar que em 1921 o teólogo protestante Ferdinand Kattenbusch escreveu: as palavras da instituição de Jesus durante a Última Ceia constituem o ato verdadeiro e próprio de fundação da Igreja. Com a Eucaristia, Jesus instituiu a Igreja. Como conclui Bento XVI, “(…)A Igreja se torna uma unidade, torna-se o que é a partir do corpo de Cristo e conjuntamente, a partir de sua morte, fica aberta à vastidão do mundo e da história. A Eucaristia é um processo visível do reunir-se, um processo que, em cada lugar e por meio de todos os lugares, é um entrar em comunhão com o Deus vivo, que aproxima, a partir de dentro, os homens uns dos outros. A Igreja forma-se a partir da Eucaristia. Dela a Igreja recebe a sua unidade e a sua missão. A Igreja deriva da Última Ceia, e por isso mesmo deriva da morte e ressurreição de Cristo, por Ele antecipadas no dom do seu corpo e do seu sangue.(…)”

Fonte de pesquisa: JESUS DE NAZARÉ, da entrada em Jerusalém até a ressurreição, Bento XVI.

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