Sábado ou domingo? – Por Marcos Rocha

Antes de mais nada, é preciso saber que existem facções cristãs que preservam o costume judaico de culto aos sábados, como também existem separados que tomaram para si a doutrina do domingo. Leremos uma adaptação sintética do estudo produzido por D.Estêvão Tavares Bettencourt, em seu livro Católicos perguntam, da editora O Mensageiro de Sto.Antônio, páginas 41 à 44.

“A Lei de Moisés, entre as suas prescrições mais antigas, mandava que os judeus descansassem no sétimo dia ou sábado (shabbath), dedicando-o totalmente ao Senhor (v. Ex 20,8; 23,12;34,21 ). A palavra shabbath, em hebraico, significa repouso; está relacionada com SHEBA, sete em hebraico. Donde vemos que o conceito de sábado envolve tanto a idéia de REPOUSO como a de SÉTIMO DIA.
Durante sua vida mortal, Jesus se submeteu à lei: quis ser circuncidado e acompanhar a sua gente na observância do sábado. Repreendia, porém, os fariseus por seu rigorismo, que podia chegar à hipocrisia, colocando a caridade acima da observância literal do sábado (Mt 12,10-14; Lc 13,10-17; 14,1-6). Lembrava o seguinte princípio: “O Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado.” (Mc 2,27); o sábado seria, pois, um meio para o homem atingir mais seguramente o grande fim de sua vida, a união com Deus; não seria um fim em si.

Conseqüentemente, Jesus atribui a si mesmo o poder de modificar ou suspender a guarda do sábado ( cf. Mc 2,28). Por causa disso, os doutores da Lei o incriminavam (Jo 5,9), mas Jesus respondia que não fazia senão imitar o Pai que, tendo entrado no seu repouso após criar o mundo, continuava a governar a este e aos homens. Foi, por certo, esta atitude de Jesus que inspirou aos antigos cristãos uma certa liberdade em relação ao sábado, fazendo-os compreender o espírito da observância desse dia.  ”

Ora,devemos ficar atentos a este pensamento bem articulado de D.Estêvão. Jesus afirmou ser ele o senhor do sábado. E criticava os doutores da lei pelo rigor ao cumprimento do sábado sem pensar ao menos na caridade. Mas a principal passagem é João 5,8-11.18:
Ordenou-lhe Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda. No mesmo instante, aquele homem ficou curado, tomou o seu leito e foi andando. Ora, aquele dia era sábado. É sábado, não te é permitido carregar o teu leito. Respondeu-lhes ele: Aquele que me curou disse: Toma o teu leito e anda. (…) Por esta razão os judeus, com maior ardor, procuravam tirar-lhe a vida, porque não somente violava o repouso do sábado, mas afirmava ainda que Deus era seu Pai e se fazia igual a Deus.”

Depois do sepultamento e posterior Ascensão de Jesus, os discípulos continuaram a observar o sábado, para anunciar aí, no culto dos judeus o Evangelho de Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Mt 28,1; Mc 15,42; At 13,14; 16,13;17,2;18,4. Podemos ver, até antes, a observância do sábado como 7º dia, como em Mc 1,21;6,2; Lc 2,41;4,16.22.31s; 13,10.Jo 4,23s e em Rm 10,17. D. Estêvão fala a respeito da missão de S.Paulo, o 13º apóstolo:

” Podemos crer que São Paulo, arauto da abolição das observâncias JUDAICAS, não tenha imposto a celebração do sábado aos cristãos convertidos do paganismo. O apóstolo chegava mesmo a acautelar os fiéis contra a INFILTRAÇÃO DE IDÉIAS JUDAIZANTES: ” Que ninguém vos critique por questões de alimentos ou bebidas ou de festas, novas luas e sábados, que são apenas sombra de coisas que haviam de vir, mas a realidade é o corpo de Cristo” (Cl 2,16-17″

Vemos claramente que, na época dos apóstolos, os cristãos participavam dos costumes judaicos para evangelizar. São Paulo, nesta passagem , deixa claro que o SÁBADO, assim como as demais regras do judaísmo, estavam abaixo da realidade depositada na Eucaristia. O sétimo dia iria ser substituído pelo primeiro dia, chamado domingo. Assim como a Antiga Aliança, a Antiga Ceia Pascal , o Primeiro Adão e a Primeira Eva foram pela Nova Aliança, a Eucaristia, Jesus Cristo e Maria, sua mãe.

Cristo ressuscitou um dia após o sábado( Mc 16,9)  No ano de 57/58, cristãos da Ásia Menor já se reuniam no primeiro dia da semana, conforme Atos 20,7, para a celebração da Eucaristia. Em 1 Cor 16,2 São Paulo já recomenda o primeiro dia da semana. Já em Ap 1,10; Jesus relembra sua ressurreição, já usando do nome DOMINGO.

At 20,7: “ No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o pão, Pulo, que havia de viajar no dia seguinte, conversava com os discípulos e prolongou a palestra até a meia-noite.”1 Cor 16,2 : “ No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que tiver podido poupar, para que não esperem a minha chegada para fazer as coletas.”

Ap 1,10 : “Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta”

As passagens bíblicas são claríssimas. Com a vinda do Messias, uma nova religião tinha sido criada. Os dez mandamentos foram aperfeiçoados com a tônica do Amor. A antiga ceia pascal foi substituída pela Eucaristia. Jesus era o novo Adão, a Nova Aliança, o início de uma nova humanidade. Jesus criara o cristianismo. Substituíra o sábado pelo domingo. O dia do repouso, o sétimo dia judaico, pelo dia do senhor, o dia da ressurreição.
Esse dia tomou o nome de Kyriaké heméra, dia do Senhor, dia do Imperador. Do grego para o latim, surgiu Dominica Dies, que em português nasceu dominga ou domingo.

A celebração do domingo nasceu efetivamente com a origem da Igreja, pois os apóstolos estavam reunidos no 50º dia (Pentecostes), que era domingo, quando receberam o Espírito Santo , em At 2,1-4; recebimento esse prometido em At 1,7-8, com a ascensão de Jesus Cristo.

” Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo” (Atos  1,7-8)

“  Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa toda a cassa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e repousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos 2,1-4)

Um último pensamento de D.Estêvão conclui com maestria essa certeza no domingo:

” Aliás, observando o domingo, os cristãos estão obedecendo exatamente à Lei de Deus, pois dedicam todo sétimo dia ao repouso (sheba e shabbath) e ao culto do Senhor; apenas deslocaram em um dia a contagem dos dias da semana. Isso ficou bem nítido na nomenclatura portuguesa, como se vê abaixo:

Semana judaica : 1ª f, 2ª f, 3ªf, 4ªf, 5ªf, 6ªf   , 7ªf

Semana cristã :    2ª f, 3ª f, 4ªf, 5ªf, 6ªf, sáb, domingo.
Seria, de resto, despropositado que os cristãos continuassem a observar o sétimo dia dos judeus, visto que nesse dia Jesus ficou no sepulcro e só ressuscitou no dia seguinte, apresentando-nos a nova criatura, à qual nos devemos todos conformar.”

Em suma, o dia do repouso permanece no domingo, que também é o primeiro dia, o dia da ressurreição.

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