Posted By Camila Martins on 17 de agosto de 2010
Toda vocação vem de Deus…
Ele a implanta em nosso coração antes mesmo de nascermos: “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. E te constituí profeta para as nações” (Jr 1,5). E nós como súditos seus, devemos cuidar dessa semente com todo carinho e cuidado, para que a mesma possa atingir o fim para o qual foi criada.
Cada ser humano possui dentro de si uma sementinha dessa…
A mim, Deus agraciou com o Dom da Vocação Sacerdotal. Desde meus onze anos de idade, brincava com os amigos que um dia seria Padre… mas nada decidido ainda. Como todo menino, tive aquela indagação: “o que ser quando crescer”? Pensei em muitas coisas. Iludido por aquilo que sempre impressionava todo menino, pensei em ser: motorista de ônibus, advogado, policial, professor, médico, empresário… mas nunca havia pensado seriamente em ser um padre.
O tempo passou… e, com ele, muitos sonhos também passaram. Vieram outros, e, um deles seria futuramente casar-me, ter um filho.
Mas… aos poucos fui percebendo que minha sementinha começava a brotar. Suas folhas eram diferentes daquelas árvores já formadas e pelas quais se pode saber quais frutos nasceriam.
Depois de muito tempo, já aos dezessete anos, quando fui convidado para participar de um grupo de jovens na comunidade onde nasci, comecei a interessar-me pelo sacerdócio. O que falou mais forte foi ver um dos padres de minha paróquia presidir a Santa Missa. Isso era um segredo somente meu. Percebia que Deus me chamava: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16), mas ainda não dei a Ele uma resposta concreta.
Certo dia, trabalhando de servente de pedreiro num bairro de minha cidade, o pedreiro, muito conhecido meu e bem distante da vida da Igreja, mostrou-me da casa onde trabalhávamos, um muro bem alto, e disse que ali era uma casa de freiras. Aquilo me impressionou… nunca tinha visto uma casa de freiras… mas deixei toda aquela conversa e continuei a trabalhar…
Percebendo que a vida matrimonial para mim se colocava em segundo plano, meu coração ansiava por algo diferente… até que acordei… e com a voz do coração disse pra mim mesmo: “vou ser padre”. Logo em seguida veio a pergunta: mas como vou fazer isso? Na época eu não tinha proximidade com meu pároco e por isso não tinha liberdade para falar com ele. Cheguei a ligar e falar com pra ele, mas a vergonha me fez recuar… não falei o que queria.
Por Providência divina, lembrei-me da casa das freiras… procurei o número no catálogo telefônico, liguei e uma freira com nome esquisito e voz angelical, explicou-me sobre a as diferentes formas de vida consagrada. Lembro-me que na conversa ela falou dos Capuchinhos ou frades menores, os quais já tinha visto no mesmo catálogo. Liguei para os Capuchinhos e um deles me deu o telefone da Arquidiocese de Belo Horizonte. Liguei para lá e um frei me direcionou a falar com o Padre Geraldo Magela (bairro Dom Bosco). Fui até a casa do padre e lá ele disse que eu poderia entrar em contato com Padre Ivan (bairro Minas Brasil) ou o Padre Áureo (bairro São Geraldo). Na escolha, liguei para o Padre Áureo. Conversei com ele, fui até o seminário.
Tempo depois, quando percebi, já estava participando em Belo Horizonte, uma vez por mês, dos encontros vocacionais. O curso era um ano de preparação. Fiz somente seis meses, ou seja, o segundo semestre. Lembro-me o padre dizer que talvez não entraria no seminário no próximo ano por causa do pouco tempo te preparação. Mas o Senhor mesmo disse: “… eu conheço os que escolhi” (Jo 13,17b).
Fiquei triste com a decisão dele, mas na oração pedi a Deus que me ajudasse a entrar no seminário. Dias depois, o padre me liga dizendo que eu poderia entrar no seminário no próximo ano e que eu deveria providenciar documentos, objetos pessoais e me preparar para fazer um retiro de três dias… no meu rosto… alegria total… “Semelhante a um homem que encontrou um tesouro” (Mt 13,44a).
Mas ainda restava um problema a solucionar… como falar isso para minha família? Com coragem falei para minha mãe… ela ficou muito triste, inconformada, não queria que eu fosse, pois eu era o “braço direito dela” em casa, mas depois de alguma conversa, permitiu que eu fosse… e fui…
No ano 2000, entrei para o seminário da Arquidiocese de Belo Horizonte. Fiz toda a Filosofia e três anos de Teologia. Ao faltar um ano para acabar o curso, pedi para sair da Arquidiocese, pois vi que no meu coração, aquela sementinha que estava brotando e já estava agora crescida, não estava mais se adaptando ao clima da cidade, e que pedia para ser plantada em outro terreno. De qualquer forma, percebi que essa era a vontade de Deus: “O Mestre está aí e te chama” (Jo 11, 28b).
Depois de um ano fora do seminário e trabalhando, conheci alguns padres que me orientaram a vir para o seminário da Diocese de Janaúba – MG. Aqui aceito, em 2008 continuei o curso de teologia em Montes Claros. Fui ordenado Diácono em 24 de janeiro de 2009 e a sacerdote em 04 de julho de 2009.
Hoje percebo claramente que Deus é o grande autor de tudo isso em mim: “Eu te consagrei para fazer de você profeta das nações. Segue-me…” (Jr 1,5) … “Eu faço de ti luz das nações, para que minha salvação atinja os confins da terra” (At 13,4).
É Ele quem dá a graça para sermos seus discípulos segundo o seu desígnio: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15). E hoje como padre, faço minhas as mesmas palavras de São Paulo: “Não que eu seja perfeito ou que já tenha conseguido a perfeição, mas continuo a correr para conquistar o prêmio, pois para isso já fui conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3,12).
A vida do sacerdote deve ser iluminada pelo gesto de Cristo: “Eu me consagro por eles, afim de que eles também sejam consagrados na verdade” (Jo 17,19).
Agradeço ao meu Deus, por ter me chamado à vida sacerdotal e a mim confiado tão grande dádiva… um verdadeiro tesouro escondido em vaso de barro, onde o barro vai se acabando cada dia e a glória de Deus sendo manifesta ao mundo…. “tudo por ele, nele, por amor até o fim: ’é necessário que ele cresça e eu diminua’” (Jo 3,30).
Rezo para que cada dia, pela graça de Deus, eu, padre, seja: “ao mesmo tempo, pequeno e grande, de espírito nobre, como de sangue real, simples e espontâneo como um colono, um herói no domínio de si, um homem que lutou com Deus, uma fonte de santificação, um pecador que Deus perdoou, senhor de seus desejos, um servidor humilde para com os tímidos e fracos, que não se rebaixa diante dos poderosos, mas se curva diante dos pobres, discípulos de seu senhor, chefe de seu rebanho, um mendigo de mãos largamente abertas, um portador de inumeráveis dons, um homem do campo de batalha, uma mãe para confortar os doentes, com a sabedoria da idade e a confiança de um menino, voltado para o alto, os pés na terra, feito para a alegria, experimentado no sofrimento, longe de toda inveja, que vê longe, que fala com franqueza, um inimigo da preguiça, sempre fiel…” (De um manuscrito medieval”.
Amém.
Pe. Onofre Agatão Ferreira Júnior
Pároco da Paróquia N. Sra. da Assunção/Porteirinha-MG
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