Archive for outubro, 2009

Deus é confiável?

outubro 13th, 2009

Novo livro examina a fidelidade de Deus e nossas dúvidas

ROMA, domingo 11 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- O maior problema que os católicos enfrentam hoje é a crise de confiança em Deus, afirma do padre Thomas D. Williams, LC, autor do livro Can God Be Trusted? Finding Faith in Trouble Times, recém-lançado nos Estados Unidos.

“O mundo de hoje está cheio de traição”, ele afirma em seu livro, “traição de pais, de amigos, de esposos, de sacerdotes, de instituições. Mas os maiores problemas começam quando damos início as questionamentos à fidelidade de Deus. Muitos hoje não estão convencidos de que Deus compre suas promessas, e esta desconfiança pode destruir nossa vida espiritual”.

Nesta entrevista, ZENIT pediu ao padre Williams, professor de teologia em Roma e comentarista do canal de televisão norte-americano CBS, que explique a natureza desta crise e as possíveis soluções que apresenta em seu livro.

-Por que publica um livro em que pergunta se Deus é fiel?

-Pe. Williams: Comecei este livro há três anos, quando me dei conta de como, frequentemente, em conversas espirituais, os problemas das pessoas voltam ao tema  ‘confiança em Deus’. Parece-me que todos temos problemas com a confiança e que muitas de nossas dificuldades na vida espiritual estão de algum modo ligadas a uma falta de confiança em Deus.

Por outro lado, é admirável como a Bíblia -por exemplo, no livro dos Salmos- insiste novamente na importância da confiança em Deus, como núcleo de uma vida espiritual. Deus quer que se tenha confiança e quase nos implora que dependamos dele incondicionalmente. Não existe nada mais difícil, nem importante para a vida cristã.

Este livro quer responder a muitas pessoas que possuem dúvidas sobre a fidelidade de Deus. Eu o escrevi especialmente para aqueles que desejam verdadeiramente confiar em Deus, mas que, por alguma razão, têm problemas de confiança.

-Quais são alguns desses problemas?

-Pe. Williams: Para escrever este livro, reuni uma equipe de investigadores que me ajudaram a entrevistar centenas de pessoas nas ruas sobre a confiança em Deus. Queria me assegurar de que não estava apenas projetando minhas próprias experiências e pensamentos, como também respondia as dúvidas, as dificuldades e as perguntas que as pessoas possuem atualmente.

As respostas a estas entrevistas me iluminaram muito e me ajudaram a compreender uma série de atitudes, desde pessoas cuja confiança em Deus parecia inabalável até outras que simplesmente acreditam que Deus não é confiável.

Muitas respostas, a grande maioria, caíram no meio de dois extremos e expressaram um profundo desejo de confiança em Deus, contudo, muitas dificuldades para colocá-la em prática.

-Por exemplo?

-Pe. Williams: Às vezes estas dificuldades vêm de uma série de traições geradas na infância. Custa para as pessoas que se sentem enganadas por seus pais, por exemplo, confiar em Deus (que se apresenta como Pai).

Outros experimentaram as traições de sacerdotes, que ferem profundamente suas relações com Deus e com a Igreja.  Alguns vão ao ponto de culpar a si mesmos, pois acreditam que não são dignos da fidelidade dos outros. E quando há este sofrimento nas relações interpessoais, é difícil que não haja influência na relação com Deus.

Já outros se sentem traídos por Deus. Em nossas pesquisas, muitas pessoas afirmaram ter dado plena confiança a Deus, mas disseram que ele falhou. Confiaram nele, mas ele não ofereceu nada. Esta tende de ser uma das experiências mais dolorosas da vida e tínhamos que tratá-la no livro.

-Que diz a uma pessoa que se sente traída por Deus?

-Pe. Williams: O que não pode fazer é pregar. Ninguém quer escutar que está equivocado, que não é justo com Deus ou que pode imaginar o problema. Não seria correto nem construtivo.

Tento falar mais com um companheiro de viagem do que como um professor. Todos já tivemos de enfrentar situações semelhantes a estas e temos de ajudar uns aos outros para superar os obstáculos da fé e da confiança.

O primeiro passo para recuperar a confiança pode vir da compreensão de que Deus não é indiferente a nosso sofrimento. Não é apático, nem distante, nem despreocupado. Na verdade, ele “sente nossa dor” inclusive mais profundamente que nós mesmos. Não foi esta a mensagem da cruz, em que Jesus Cristo escolheu padecer conosco?

-Há caminhos para superar nossa desconfiança?

-Pe. Williams: Acredito que existam muitos. Dedico dois capítulos do livro a um tema que considero fundamental: o ajuste de nossas expectativas sobre Deus. Estou convencido de que muitas vezes (nem sempre), nossas experiências de traição procedam de um mal-entendimento fundamental: esperamos que Deus cumpra as promessas que nunca fez, ao invés de aproveitar plenamente as promessas que nos fez. Todos temos necessidade de comentar nossas expectativas sobre Deus. Quem é Deus para mim? O que Ele me prometeu? O que posso esperar Dele que nunca foi oferecido?

Por exemplo, Jesus Cristo jamais prometeu que, se o seguíssemos tudo seria mais fácil em nossas vidas. Não prometeu segurança no emprego, nem liquidez econômica, nem saúde perfeita, nem casamentos ideais nem muitas outras coisas que de fato gostaríamos. O fato é que, aos seguidores, Jesus Cristo prometeu uma parte de sua cruz todos os dias.

-Temos de redimensionar nossas expectativas para um nível mais racional? Esperar menos para não nos decepcionar?

-Pe. Williams: Não, não. É exatamente o oposto! As coisas que normalmente esperamos de Deus (e sobre as quais nos chateamos quando não recebemos) são os bens temporários e não eternos.

Dói-nos não tê-los, mas este mesmo pode ser um caminho a um coração mais puro e com prioridades mais claras. Deus não nos promete menos que isso, e sim muito mais.

Basta ver algumas das coisas maravilhosas que Jesus Cristo nos promete: promete dizer-nos sempre a verdade. Promete nos amar sempre, incondicionalmente. Promete-nos tudo o que necessitamos para chegar ao céu. Promete que nunca nos exigirá mais do que podemos oferecer. Promete estar sempre conosco e nunca nos deixar sozinhos. Promete dar sentido e valor a todos nossos sacrifícios, lutas, provas e trabalhos. Promete ser nosso prêmio eterno.

Estas coisas não são menos importantes que a seguridade no emprego! São maiores, mais importantes! Deus é o único que pode oferecer tais promessas e cumpri-las.

-Alguns dizem que a confiança de Deus é somente uma desculpa para pessoas preguiçosas que não querem assumir suas próprias responsabilidades. O que pensa disso?

-Pe. Williams: Se trata de uma queixa típica e compreensível, e sim, tento responder em meu livro. Confiança e responsabilidade não se excluem mutuamente, pois se complementam. O segredo está em identificar bem qual é nossa parte e qual parte corresponde a Deus. A virtude da humildade nos ajuda a dar-nos conta de que dependemos de Deus para muitas coisas. Não podemos caminhar sós pela vida; necessitamos da amizade de Deus em cada momento. Mas este reconhecimento sincero de nossa dependência de Deus não nos deveria levar à abdicação de nossas responsabilidades.

Deus nos criou livres, capazes de compromissos e capazes de dominar nossos projetos. No  final das contas, não se trata de “ou Deus ou eu”, mas ele nos convida a partilhar de uma responsabilidade com ele. Recorde que Jesus não só compara seus seguidores aos pássaros do céu e lírios do campos. Também nos compara ao administrador fiel, que sabe como distribuir a comida aos servos no momento oportuno. (Lucas 12, 42). Compara-nos aos servidores encomendados com os bens do dono, para administrá-los e “negociar” com eles (Lucas19,13). Lembra seus discípulos que os trabalhadores são poucos e pede-lhes para orar ao Dono da colheita que envie operários para sua messe (Lucas 10,2). Jesus Cristo quer que confiemos, mas também que lance-mos as mãos e trabalhemos.

-Este livro está destinado a reforçar a confiança das pessoas em Deus?

-Pe. Williams: Sim. Todos passamos por momentos difíceis e às vezes o que mais necessitamos é de que alguém nos direcione e nos recorde que Deus é fiel, que a confiança é possível e que, pesar de nossos sofrimentos mais profundos, e inclusive nossos remorsos, somo amados!

Por Karna Swanson
Fonte:www.zenit.org

“Papa tem razão: Aids não se detém com o preservativo”

outubro 10th, 2009

Entrevista aos doutores Renzo Puccetti e Cesare Cavoni

ROMA, quarta-feira, 7 de outubro de 2009 (ZENIT.org).- Suscitaram polêmica as declarações do cardeal de Gana, Peter Kodwo Appiah Turkson, a respeito do uso do preservativo entre um casal no qual um dos dois tem Aids.

Respondendo às perguntas de um jornalista, o relator geral do Sínodo dos Bispos para a África explicou que é mais eficaz investir em fármacos antirretrovirais que em preservativos para conter a propagação da Aids.

A resposta reabriu o debate sobre o uso dos preservativos como técnica para combater a expansão do HIV.

Sobre a questão já se havia expressado o Papa Bento XVI e se desencadeou uma tormenta nos meios de comunicação.

Para tentar compreender quais são os argumentos que subjazem ao debate e que parecem implicar tantos interesses, ZENIT entrevistou os doutores Renzo Puccetti e Cesare Cavoni, o primeiro médico e o outro professor de Bioética e jornalista de Sat2000, condutor do programa “2030 entre ciência e consciência”, que acabam de entregar ao editor o livro em italiano Il Papa ha ragione! L’Aids non se ferma con il condom (Fede & Cultura).

- O que pensam das declarações do cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson com respeito ao uso de preservativo?

- Puccetti: Ao ler os jornais, fiquei surpreso, mas logo li a transcrição da intervenção do cardeal e então compreendi que se tratava de mais um caso de distorção da mensagem. O cardeal, em primeiro lugar, não se deteve em uma avaliação moral da questão; ao mesmo tempo, através de suas declarações, não se afastou para nada do constante ensinamento moral da Igreja.

O cardeal reconhece, como é lógico, que junto aos fármacos antirretrovirais, o uso do preservativo se opõe à propagação da Aids nos casos em que não se recorre à abstinência e à fidelidade. Está-se falando portanto de tudo que teoricamente pode ser utilizado.

O cardeal fala da experiência dos centros de saúde de Gana e da Igreja Católica, segundo os quais nas famílias nas quais se propôs o preservativo, este funcionou só se estavam decididas a manter a fidelidade. O cardeal recordou que, também no caso de pessoas sorodiscordantes, o recurso ao preservativo é fonte de uma falsa segurança, agravada pelo fato de confiar em uma manufatura.

Quando o presidente de Uganda deu luz verde à estratégia ABC (Abstinence, Be faithful, Condom) que se revelou muito eficaz em combater a epidemia da Aids e que logo foi tomada como modelo com igual êxito em outros países africanos, dizia coisas bastante similares ao que disse o cardeal: a vida não pode ser colocada em jogo confiando-a a uma fina capa de látex.

- Mas o preservativo serve ou não para deter a Aids?

- Puccetti: Não é fácil responder de forma taxativa, mas se tenho que dizer se o preservativo serve para deter a Aids nas epidemias generalizadas, a resposta que posso dar segundo o corpo de conhecimentos científicos disponíveis é “não”.

Para que pudesse funcionar, o homem deveria ser não muito diferente que um rato em uma jaula à qual antes de cada cópula alguém dosa o preservativo. Nesse caso, o preservativo poderia ser útil.

Mas como o homem não é um rato, não vive em jaulas e não há profissionais dispostos a dosar-lhe o preservativo, não há que surpreender-se de que a eficácia teórica não aconteça na vida real.

- Por que decidiram escrever um livro sobre este tema?

- Cavoni: Este livro nasce de uma triste constatação, a de que com frequência a informação fala de fatos que não conhece e, também, os deforma. É o que aconteceu durante a primeira visita do Papa à África em março deste ano.

O livro nasce desta tristeza e, também, da raiva de ver pisoteados os princípios fundamentais de uma correta informação. Ao mesmo tempo, parecia-nos necessário dar a conhecer ao público os fatos assim como sucederam e, de algum modo, abrir os olhos da opinião pública, de modo que não tome como ouro fino torpes instrumentalizações, perpetradas por motivos ideológicos, por superficialidades, ou por ambos fatores.

- Quais os argumentos para dizer que o Papa tinha razão?

- Puccetti: O livro está articulado em duas partes. Na primeira, reconstruiu-se com fidelidade absoluta o trabalho de descrição das declarações do Santo Padre; da leitura do livro se faz sumamente evidente a progressiva distorção da mensagem realizada com adendos, omissões, substituições. Logo, transcrevemos, como fazem vocês com as do cardeal Turkson, as palavras exatas do Papa ao jornalista francês que fez a pergunta sobre o preservativo. Na segunda parte do livro, resumimos o melhor que pudemos o panorama de conhecimento oferecido pela literatura científica internacional enquanto a aplicação clínica da prevenção mediante a promoção do uso do preservativo.

Dedicamos especial atenção aos números, porque consideramos que podem ser uma base de discussão compartilhada à margem da orientação religiosa.

Quando um interlocutor meu se mostra surpreso se declarações de eminentes cientistas confirmam o que diz o Papa, não posso senão deduzir disso o escasso conhecimento dos dados que no curso dos anos se sedimentaram e da amplitude das vozes que, em revistas internacionais como The Lancet ou o British Medical Journal, replicaram aos editoriais daquelas mesmas revistas.

- Por que tanto clamor pelas palavras do Papa e como se produziu a desinformação?

- Cavoni: Todos os maiores jornais nacionais e internacionais se lançaram, direta ou indiretamente, contra o pontífice, réu de ter dito que os preservativos não resolvem os problemas da África e sim, os agravam. As críticas se acentuaram logo no momento em que chegaram as observações, mais ferozes, por parte de vários expoentes de governos europeus e inclusive a resolução do Parlamento belga que pedia ao Papa que desmentisse o afirmado.

A questão é que quem toma posições tão fortes, se presume que saiba o que disse em verdade o Papa; e ao contrário não foi assim: todos falavam mas pouco haviam escutado. Tanto é assim que, em um segundo momento, muitos cientistas confirmaram os conceitos expressados por Bento XVI.

Temos de pensar que, para muitas pessoas, a primeira e única fonte de informação, ou de simples conhecimento da realidade circundante, está determinada por jornais e telejornais. Está vigente ainda, em suma, o clássico “foi dito no telejornal”, ou o “li no jornal”, e isto para confirmar a veracidade do que se soube.

Os meios de informação adquirem um princípio de autoridade potentíssimo. Se portanto as coisas, os fatos, as notícias apresentadas se baseiam em reconstruções parciais, o leitor receberá em presente uma leitura da realidade deformada, que não corresponde à verdade. Com esta técnica se pode inclusive criar uma realidade virtual paralela à real.

Se eu, devendo informar sobre as palavras do Papa, e comentá-las, não o escuto e não reproduzo corretamente, corro o risco de comentar algo que não se disse ou se disse de modo substancialmente diferente.

O problema das fontes jornalísticas, que devem ser acessíveis, etc, das que se fala tanto nestas semanas, não vale apenas, para as atas públicas das fiscalização, mas para o abc do jornalismo: ser testemunha de tudo o que se dispõe a descrever.

Não estamos falando de uma nebulosa objetividade, de imparcialidade; não, estamos falando do fato de que devo estar presente no cenário do fato que descrevo. E se isto não é possível, visto que no caso específico, não todos os jornalistas podem estar no séquito do pontífice, quando menos me permito voltar a escutar, palavra por palavra, o que de verdade disse o Papa e por que o disse.

Ao contrário, muitos se fiaram do que haviam ouvido dizer, de um primeiro texto, incorreto. O resto é história comum de desinformação.
Por Antonio Gaspari
Fonte:www.zenit.org